domingo, 22 de fevereiro de 2009

Pataxó está assoreado e morto

Tomado por plantas aquáticas e a lama, Pataxó não terá como escoar as águas do inverno

Todo o ano, mais ou menos por essa época, a população de Ipanguaçu, no Vale do Assu, deixa de plantar e olha para o céu. E não se trata de um ritual de reflexão. O povo, que é muito religioso, espera sempre pelo pior – as enchentes. Em Ipanguaçu, água pelos joelhos não é novidade. Quando ela não vem do rio Assu, usa o pequeno Pataxó como porta de entrada.
No ano passado, foi pior. Junto com as cheias do Rio Assu, Ipanguaçu enfrentou também seu maior pesadelo: o transbordamento do que um dia já lembrou um rio, mas que hoje, por causa do severo assoreamento, não serve nem como leito natural para as águas – o Pataxó.
Quem mora lá sabe. Quando o açude do Pataxó sangra 80 centímetros de lâmina d’água, os habitantes de boa parte da cidade já estão com as casas inundadas. Impedida pela terra e a densa vegetação existentes no leito do rio, a água procura o caminho mais fácil - as ruas de Ipanguaçu.
É por isso que, todo o começo de ano, o pequeno agricultor dali pára de plantar o feijão, o milho e a melancia de subsistência e olha para o céu. Plantar em fevereiro pode significar perder tudo em março ou abril. Afinal, milho se colhe com 75 dias; feijão com 60 e mamão com 90. A tempestade, pelo calendário das chuvas no Rio Grande do Norte, chega antes.
Este ano, com o anúncio, pelos meteorologistas, de um regime normal de chuvas, o sinal de alerta já foi dado em Ipanguaçu. Sem um período de deficit, os reservatórios já ultrapassaram os 80% de capacidade.
Nesse contexto de má gestão dos recursos hídricos, o que já foi uma graça para muitas comunidades do interior – o sangramento dos açudes – virou um problema não só em Ipanguaçu, mas em vários municípios do Estado.
Já quando o prejuízo vem com a força das águas do Rio Assu, quem perde em Ipanguaçu são os grandes projetos agrícolas, como o administrado há décadas na região pela gigante americana Del Monte, líder das exportações de banana brasileira para a Europa.
Em 2004, os embarques nacionais da fruta renderam à empresa US$ 14,9 milhões - 55% do total foram destinados à União Européia. Depois das enchentes de 2004 e 2008, a Del Monte viu seus 120 containeres exportados semanalmente caírem pela metade. Resultado do fechamento de cinco fazendas na região (uma delas experimental) e a demissão de 1.300 empregados. Só em Ipanguaçu foram 700 demissões.
Os ipanguaçuenses sabem que, historicamente, o modesto Rio Pataxó, com seus 21 km de extensão, é um problema igualmente grande para a população, pois suas cheias deixam crianças sem aula, escolas destruídas e aniquila o pouco que as pessoas humildes têm em suas casas. Aumenta endemias e pulveriza pequenas plantações de subsistência.
Segundo os moradores mais antigos de Ipanguaçu, as grandes enchentes provocadas na cidade pelo Rio Assu apareceram em anos como 1964, 1985 e 2008. Mas, desde que o Pataxó deixou de ser rio para se transformar em pântano, a cidade sofre com inundações praticamente a cada dois anos. Elas aconteceram em 2002, 2004 e – a mais grave – no ano passado. Se a culpa é ou não da instalação dos grandes projetos exportadores na região, como o da banana e do mamão, que alteraram a topografia do lugar, isso já não importa mais.
“A saída agora é resolver a questão com um projeto estruturante”, diz o engenheiro Rômulo Macedo, conhecido por sua atuação de anos junto ao projeto de transposição do Rio São Francisco. A empresa que ele integra ganhou a licitação para elaborar o projeto executivo da construção de um dique em Ipanguaçu, pegando uma parte do Rio Assu e uma parte bem menor do Pataxó. A intenção, na verdade, é resolver de vez a ameaça que vem do Rio Assu.

Soluções para o assoreamento não passam de promessa

Para o diretor geral do Idema, Eugênio Cunha, olhando para o trágico panorama do assoreamento dos rios do RN, o caso da Bacia do Piranhas-Assu é o que certamente desperta para a necessidade de uma intervenção urgente.
“Vamos continuar investindo em monitoramento de imagens por satélite para montar nossas estratégias”, disse Cunha, recentemente, durante um encontro nacional sobre monitoramento georeferenciado, em Natal.
Na semana passada, o secretário de Recursos Hídricos e do Meio Ambiente do Estado, o vice-governador Iberê Ferreira de Souza, anunciou durante a IV Reunião de Análise e Previsão Climática para o Semi-árido Nordestino, a implantação de uma rede de monitoramento automático das águas do RN. O sistema seria composto por mais de 50 estações hidrometeorológicas em todo o Estado e receberia um investimento do Governo da ordem de R$ 6 milhões.
“Com essas estações – disse Iberê – teremos informações em tempo real de água nos nossos reservatórios, além de dados pluviométricos e da vazão dos rios”.
Até março deste ano, o plano do governo estadual é ver 11 estações em funcionamento nas bacias Apodi-Mossoró e Piranhas-Assu, que receberão as águas do Rio São Francisco.
Na segunda etapa, mais 40 estações hidrometeorológicas seriam implantadas pelo Estado até 2010, um investimento de US$ 3,3 milhões, equivalente a mais de 6 milhões de reais.
Tudo muito bom e bonito. Mas, enquanto isso, em Ipanguaçu, o projeto executivo para a construção de um dique, ao custo de R$ 700 mil, gera mal estar na cidade. Gente como o atual prefeito Leonardo da Silva Oliveira e o ex, José de Deus, acham que, com muito menos dinheiro do que o aplicado no projeto executivo, os 21 km do Rio Pataxó já poderiam estar dragados e seu leito aprofundado em 1 metro, voltando a servir como canal de escoamento toda vez que o açude do Pataxó sangrar.
Segundo o prefeito Leonardo da Silva Oliveira, do PT, o custo da obra – já orçada – oscila entre R$ 460 a R$ 500 mil reais. Ela compreenderia o trabalho de duas dragas, primeiramente livrando o Pataxó de sua densa vegetação subaquática e, depois, dragando o rio em mais 60 centímetros. “Isso não resolveria o problema das enchentes, mas pelo menos impediria temporariamente os estragos toda vez que acontece um sangramento do açude da cidade”, diz.
Mas quando o problema é o Rio Assu, não tem jeito – as enchentes são líquidas e certas.

Uma cidade conhecida por ilha

Sacramentinho é o nome de uma localidade em Ipanguaçu onde as crianças e os adultos ainda aproveitam o pouco do que resta de um rio. Plantados em casas humildes ao lado do Pataxó, eles não só se refrescam em suas águas, como bebem dela e lavam roupa. As crianças não são exigentes. Quando nasceram já encontraram o rio agonizante. E aprenderam a aproveitar do pouco de vida que lhe resta.
Por toda a Ipanguaçu foram construídas três passagens para que seus habitantes pudessem atravessar o Pataxó. A que existe em Sacramentinho lembra uma obra de drenagem da Caern, diferenciada apenas pela largura maior dos canos. O resto é vegetação subaquática. Com paciência ainda é possível encontrar alguns peixes. Eles estão todos no açude, cujo sangramento é o que infelicita os moradores de Ipanguaçu.
O agricultor Antônio Manaia nasceu ao lado do Pataxó onde viveu seus mais de 60. Ele lembra que o pântano ali se formou depois que os grandes projetos de fruticultura começaram a adubar suas plantações nos anos 80. “Foi então que esse matagal se formou sobre um leito cada dia mais raso”, diz.
Ao lado da casa de Antônio Manaia, um veículo de transporte repousa de cabeça para baixo à espera de uso. É um barco construído por parentes, útil toda vez que o Rio Pataxo, engasgado, começa a vomitar as águas do açude localizado a poucos quilômetros dali.
No ano passado, quando as águas do Rio Assu se encontraram com as do Pataxó, o velho e bom barco voltou à ativa. E é na frente da casa de Manaia, sobre o mesmo cavalete, que ele espera o dia em que o sertão vai virar água. Ou quando a cidade voltar a virar ilha.

Aplicação da verba não está definida

Segundo deputado Fernando Mineiro, presidente da comissão de Meio Ambiente da Assembleia, o Governo do Estado tem em caixa R$ 1 milhão de uma emenda parlamentar da deputada Fátima Bezerra para a realização de um “projeto estruturante” na região. Nesse caso, é o projeto executivo do dique em Ipanguaçu, de autoria do engenheiro Rômulo Macedo.
Em Ipanguaçu, há controvérsias sobre esse assunto. O ex-prefeito José de Deus diz que esse dinheiro deveria pagar o desassoreamento do rio Pataxó. O atual prefeito, Leonardo da Silva Oliveira, é da mesma opinião.
O município recebeu do presidente Lula verbas federais para a construção de mil casas populares depois das cheias de 2004. De lá para cá, só o dinheiro da emenda parlamentar de Fátima Bezerra foi liberado. E, em dezembro do ano passado, com 10 meses de atraso, chegaram R$ 20 milhões para reparar os danos causados pelas enchentes de 2008. O pedido do Estado beirava os R$ 100 milhões. Dos 20, apenas 4 serão destinados às obras, como a reparação de reservatórios e a reconstrução de pontes.
“Estamos desprotegidos se o Pataxó sangrar novamente”, diz o prefeito Leonardo da Silva.
“Além do mais, ninguém nunca viu um único técnico sequer fazendo medições ou passeando por aqui”, dispara o ex, José de Deus.
Perguntado durante uma reunião na cidade sobre os custos do dique, o engenheiro Rômulo Macedo estimou a obra em R$ 40 milhões. Semana passada, falando ao telefone de Recife à TRIBUNA, Macedo reformulou a estimativa. “Com os R$ 25 milhões acho que dá pra sair, tudo dependerá da altura do dique”. O projeto executivo, segundo informou, fica pronto em fins de maio.
Mas ele reconhece que a gestão da bacia Piranhas-Assu ajudaria decisivamente na questão das inundações.
“É preciso criar uma gestão que possibilite um volume de espera das águas, impedindo os problemas decorrentes da sangria do açude Armando Ribeiro”, observa. Um controle nesse nível já vem sendo feito no Brasil por comitês de bacias, onde representantes dos estados e comunidades envolvidas têm assento. Está muito longe de ser o caso do Piranhas-Assu.


Fonte: Tribuna do Norte. 22/02/2009

Meio Ambiente prepara nova fiscalização no Alto de Ponta Negra

A fiscalização contra a poluição sonora na noite de Ponta Negra será intensificada após o carnaval. O secretário adjunto da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo (Semurb), Rivaldo Fernandes, explica que a vigilância vai acompanhar especialmente as atividades na Rua Manoel B. de Araújo, conhecida como Rua do Salsa, e na Rua Aristides Porpino. As duas vias fazem parte do chamado Alto de Ponta Negra, que concentra a maior parte da vida noturna do bairro. O secretário informa que fiscais do órgão voltarão para verificar o cumprimento das determinações definidas na semana passada, quando vários estabelecimentos foram proibidos de gerar som ambiente e música ao vivo, após terem sido flagrados com música acima de 50 decibéis depois da 22h, o que contraria a legislação ambiental.
Alguns dos mais conhecidos estabelecimentos da região, como o Sargent Pepper’s e o Azúcar, terão de apresentar defesa e projetos de adequação à secretaria. Os bares foram autuados em duas operações, promovidas na quarta e na sexta-feira da semana passada. ‘‘A poluição sonora é um problema antigo que vem incomodando muito os moradores’’, comenta Rivaldo.
O secretário informa que depois do carnaval o bairro e outros pontos de lazer e vida noturna da cidade receberão visitas de uma operação conjunta, que também vai contar com a participação de agentes de outras duas secretarias - a de Transporte e Trânsito Urbano (STTU) e a de Serviços Urbanos (Semsur). ‘‘Vamos atuar em três frentes. A Semurb vai fiscalizar a poluição sonora, enquanto a STTU ficará responsável pelo trânsito e a Semsur vai fiscalizar a questão dos ambulante, diz Rivaldo.

Termo

A promotora do meio-ambiente, Rossana Sudário, informa que no próximo dia 2 os empresários da região, a Semurb e o Ministério Público terão uma reunião na sede da Promotoria para que os donos dos estabelecimentos assinem um termo de ajuste de conduta, comprometendo-se e atuar de acordo com a lei. ‘‘Queremos que pare de haver esse tipo de problema na comunidade. Por isso, os empresários irão assinar o termo’’, conta a promotora.
A consolidação do Alto de Ponta Negra como pólo de vida noturna do bairro gera reclamações dos moradores há cerca de cinco anos. Em 2008, a população fez um abaixo assinado pedindo providências e entregou o documento à Promotoria do Meio Ambiente. ‘‘Minha casa fica a 500m na Rua do Salsa e tem noite que eu não consigo nem assistir TV. Às vezes, a música só acaba depois das cinco da manhã’’, lamenta um morador que não quer se identificar. Ele comenta que a poluição sonora cessou desde a fiscalização da semana passada.
Também preocupado com a questão, o empresário Joelson Ferreira defende não só o disciplinamento da exploração comercial no bairro, mas também a realização de uma campanha educativa para trazer o natalense de volta. ‘‘Hoje a imagem de Ponta Negra está ligada à prostituição e à presença dos estrangeiros, tanto no que diz respeito ao Alto quanto à orla, que, por sinal, hoje em dia, tem pouquíssima prostituição, ao contrário do que a maioria das pessoas ainda pensa. Acho que uma campanha é válida para que o natalense volte a usufruir do bairro’’, raciocina.

Fonte: DN On line, domingo, 22 de fevereiro de 2009


COMENTÁRIO GUSTAVO SZILAGYI


Algumas pessoas acham que ações como esta da Fiscalização Ambiental da SEMURB e da Promotoria Pública de Meio Ambiente vão terminar por inviabilizar a noite de Natal, que já não há muitas opções. No entanto, o que estas pessoas não querem entender é que não é a cidade que tem que se adaptar ao barulho produzido por estes bares, e sim estes bares se adequarem as normas legais exigidas para que o direito ao silêncio e ao sossego, princípio básico da constituição federal, seja respeitado.
Tudo o que o órgão ambiental da prefeitura faz, é exigir que estes bares se adaptem às normas legais. No entanto, os empresários da noite natalense, se travestem de vítimas e ameaçam encerrar suas atividades por culpa da prefeitura. Acho isso a mais pura canalhice e falta de respeito com a população, que não tem obrigação nenhuma de ouvir o barulho destes bares, e que paga seus impóstos para ter seus direitos preservados.
Acho a atitude do secretário adjunto da SEMURB extremamente oportuna. Já estava na hora de alguém tomar as rédeas deste "cavalo desembestado" que teima em não obedecer o comando do cavaleiro.
Tomara que esta não seja mais uma daquelas atividades fogo de palha. Esperamos que a NBR 10.151 e o artigo 83 da Lei Municipal Nº 4.100/92 (código de Meio Ambiente de Natal) sejam de fato respeitados, e que aqueles que ousem a ir contra, sejam punidos na forma da lei.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Rio Pitimbu: à espera da preservação

Rio Pitimbu está prestes a ter sua área de preservação demarcada

Por: Wagner Lopes - Repórter

Para alguns, um paraíso. Para outros, uma vergonha. Uns consideram um patrimônio, outros um empecilho. Para centenas é local de lazer. Sete mil o têm como fonte direta de abastecimento e renda. Mais de 200 mil têm nele sua fonte indireta de água para beber. Esse é o rio Pitimbu, curso d’água que percorre 32 km serpenteando entre os municípios de Macaíba, Parnamirim e Natal e que hoje é motivo de preocupação de ambientalistas e do poder público.
O rio, que após anos de expectativa deve finalmente ganhar uma estrutura demarcando a área de proteção a sua volta, serve hoje como uma das principais fontes de abastecimento da lagoa do Jiqui, onde desagua e de onde são retirados cerca de 30% da água consumida na capital. Ao mesmo tempo, seu leito é ponto de diversão para muitos moradores das três cidades, porém funciona também como local de despejo de lixo e dejetos, sem contar outras agressões que sofre, como o desmatamento e a ocupação irregular das margens.

Demarcação deve começar em março

O Rio Grande do Norte conta com 16 bacias hidrográficas, das quais 14 deverão ter comitês gestores. Porém, de todas essas atualmente apenas a bacia do Pitimbu conta com esse órgão. “Foi o primeiro rio a ter um comitê, criado em 2005, e já conta inclusive com um plano de gestão elaborado. Uma das decisões do órgão a ser adotada este ano é a demarcação, com estacas, da área de preservação entorno de seu leito”, explica o diretor geral do Instituito de Gestão de Águas do RN (Igarn), Celso Veiga.
A licitação para a obra de colocação das estacas foi concluída e o diretor espera assinar o contrato a qualquer momento e iniciar as obras até março. A área de proteção do Pitimbu é de 100 metros para cada margem, contados a partir do eixo central, ou seja, do meio do rio. A demarcação não vai impedir o acesso, pois não será instalada uma cerca, mas o objetivo é que sirva para identificar melhor e combater de forma mais eficaz as agressões ao Pitimbu. “As que mais nos preocupam são o processo de erosão e a poluição doméstica, industrial e agrícola”, enumera.
O Plano de Gestão Integrada da Bacia, elaborado há pouco mais de um ano, identificou 41 pontos de degradação, sendo seis em Macaíba, oito em Natal e 27 em Parnamirim, incluindo desmatamentos, ocupação irregular das encostas, aterramento, lançamento de efluentes, entre outras ameaças ao curso d’água. “É um rio muito vulnerável, pois é praticamente todo urbano”, alerta o diretor do Igarn.
Uma das medidas que o órgão espera ver colocada em prática é a transformação em área de proteção ambiental, APA, da região onde nasce o Pitimbu, próximo à comunidade de Lagoa Seca, em Macaíba. Já a demarcação com estacas levará o eixo principal do rio
como ponto de referência porque a localização de suas margens varia bastante conforme o trecho e a época do ano, o que dificultaria usá-las par medir os 100 metros da área de proteção.
“Essa piquetagem vai facilitar o controle e a proteção. Esse rio tem de ser bem cuidado, pois é o grande contribuinte para a lagoa do Jiqui, de onde sai 30% da água que abastece Natal”, lembra. Hoje, porém, ele garante que a qualidade das águas do Pitimbu está dentro das normas estabelecidas para seu tipo de uso. “Fazemos um acompanhamento constante e temos verificado que está compatível com o exigido pelo Ministério da Saúde”, ressalta, lembrando que
são usadas inclusive para reduzir a concentração de nitrato em alguns poços da capital.
Uma nova eleição para a diretoria do comitê deverá ser realizada na próxima quinta-feira. Celso Veiga destaca que fazem parte do órgão representantes dos governos federal, estadual e municipais e ainda diversos integrantes da sociedade civil organizada, dentre os quais os usuários do rio.

Ambientalista defende ação conjunta

O coordenador do Movimento Pró-Pitimbu, Waldemir Santiago, acredita que não será a iniciativa isolada dos ambientalistas, ou mesmo do poder público, que irá garantir a sobrevivência do rio Pitimbu. “A nossa preocupação é para que haja uma ação integrada, incluindo também os proprietários das terras ao longo do rio e a comunidade em geral”, defende. Hoje ele reconhece que as águas ainda são de qualidade, mas lembra que isso não estará garantido se não forem tomadas as medidas necessárias.
“Esse rio tem sofrido várias agressões, mas tem um poder de depuração incrível, principalmente porque é um rio que vem recebendo ao longo de seu leito a contribuição de águas do lençol freático”, explica. No entanto, estudos já feitos dão conta de que a poluição acumulada no fundo do Pitimbu é cumulativa e pode vir a tornar sua água imprestável, se não forem desenvolvidas ações de preservação.
Outro risco é a redução no próprio volume do rio (o que naturalmente já aumentaria a concentração dos contaminantes) devido à impermeabilização dos solos ao longo da bacia hidrográfica. “Futuramente esse rio pode se tornar temporário”, teme Waldemir Santiago. A legislação ambiental, porém, já prevê medidas e cuidados que podem evitar a
concretização desse quadro negativo.
“A hora é de fazer cumprir essa legislação, principalmente através dessas ações conjuntas”, reforça. De acordo com o coordenador, próximo à nascente do rio, em Macaíba, os problemas mais sérios são as barragens, 13 ao todo; a agricultura, com o uso muitas vezes indiscriminado de agrotóxicos; e mesmo a atividade pecuária. Outro temor diz respeito ao Centro Industrial, cujos efluentes são despejados no Jundiaí, mas que em caso de qualquer acidente durante esse processo, podem terminar indo parar no Pitimbu.
O uso de áreas próximas como ponto de recreação, ao longo de seu leito, também é um risco à qualidade das águas, uma vez que geralmente vem associada a desmatamento da mata ciliar e assoreamento das margens. Tanto que o rio que já chegou a ter mais de 3m de profundidade, hoje não passa de algumas dezenas de centímetros em diversos trechos onde ocorre ocupação irregular. “Tudo isso vem contribuindo para o rio ir se degradando ao longo do tempo. É fundamental investir em educação ambiental, para quem mora próximo saber os cuidados que deve ter”, ressalta.
Os empreendimentos imobiliários são outra preocupação do ambientalista, que apo
nta diversos dos recém-erguidos próximos ao Pitimbu como ilegais, do ponto de vista da legislação ambiental. “Em alguns locais se despeja esgoto in natura e na Zona de Proteção Ambiental 03 (em Cidade Satélite) diversos condomínios foram erguidos sem respeitar o límite mínimo dos lotes, que deveria ser de 450 m2.”
Quanto à erosão nas proximidades do condomínio Buena Vista, na marginal da BR-101, a crítica de Waldemir Santiago é ao “jogo de empurra” em que se transformou o problema. “O Idema responsabiliza o Dnit e o Dnit diz que a resposnabilidade é do Exército. Só falta o Exército dizer que a culpa é de São Pedro”, ironiza. Ele também critica o Comitê da Bacia, que apesar de hoje ser o único do Estado, não estaria tomando as atitudes necessárias. “Está inoperante. Precisa haver ação mais efetiva. Pois se hoje o rio pede água, amanhã seremos nós”, adverte.

Leito tem vários pontos onde a erosão é um problema grave

A imensa cratera aberta ao lado da BR-101 e das obras paralisadas do condomínio Buena Vista, na divisa entre Nova Parnamirim e Cidade Satélite, é hoje a imagem mais conhecida da erosão nas margens do Pitimbu, porém não é a única. No conjunto Planalto, próximo ao local onde a linha férrea atravessa o rio, um imenso buraco de mais de 5 m de profundidade e 10m de largura, que se estende por cerca de 100m, também se abriu devido às águas das chuvas, que escorrem das ruas para o leito.
“Já faz muito tempo que está assim, cada dia fica pior e ninguém faz nada”, aponta o agricultor João César Pereira, morador da região. Ao lado do Buena Vista, por sua vez, a cratera ocupa um espaço de milhares de metros quadrados, se estendendo por mais de 100 metros e com uma largura em torno dos 50 m. As paredes da voçoroca chegam a mais de 10 m de profundidade.
Lá embaixo, o retrato das agressões ao Pitimbu é mais claro. Uma cerca que atravessava seu leito tombou e agora serve de mostruário da poluição, “coletando” sacos de lixo e diversos outros materiais que vêm com a correnteza e expondo-os a quem quiser ver. O assoreamento no local tornou possível praticamente andar sobre o rio, que não passa de 40 centímetros de profundidade no ponto mais fundo e que conta até mesmo com pequenas “ilhas” formadas pela areia e pedras que desceram da cratera. No buraco é possível enxergar a “língua negra” de poluentes que desce até o Pitimbu.

Poluição toma conta de área de diversão

Um verdadeiro parque de diversões a céu aberto. Assim podem ser resumidos os diversos pontos nos quais a passagem de estradas, da ferrovia, ou mesmo a retirada da mata ciliar permitem à população chegar ao leito do Pitimbu. No conjunto Planalto, as crianças usam a ferrovia sobre o rio como trampolim. No Satélite, as margens se tornam local de piquenique. Em Nova Parnamirim, o futebol rola solto e, no Jiqui, um bom banho é a pedida de quem passa, ou quem é vizinho do Pitimbu.
“Não tenho medo dessa água não. Sempre tomei banho e nunca tive nenhum problema por isso, só não dá para beber. Agora, ruim mesmo é quando lavam os cavalos aqui dentro”, afirma o estudante Davi César Ribeiro, de 11 anos. Ele diariamente vai com os colegas tomar banho sob os trilhos do trem, que ligam Natal a Parnamirim, no Planalto. Os garotos fazem da ferrovia o trampolim para mergulhos e acrobacias, enquanto outros moradores usam as águas para lavar roupa e se divertir.
O trecho também serve de local de passagem para o treinamento do maratonista José Pereira da Silva, o “P. Silva”. Para o atleta, que corre quase diariamente ao lado do rio, é preciso atenção dos órgãos públicos para com a preservação do Pitimbu. “É muito bonito e precisa ser preservado”, defende. Porém, o que se vê em outro trecho, acessível através do conjunto Cidade Satélite, é que o uso feito pela população não é dos mais conscientes do ponto de vista ambiental.
Na área aberta em meio à vegetação podem ser encontrados restos de fogueira, ossos de galinha, diversos cocos abertos, sacos plásticos, latas de cerveja, embalagens de comida e isopores. A própria trilha que leva ao local é marcada pelo despejo de lixo, por parte de quem frequenta a área, bastante movimentada sobretudo nos finais de semana, quando grupos se juntam para se divertir na margem do Pitimbu.
Um pouco mais abaixo no rio, ao lado da antiga “cratera do Mahatma Gandhi”, em Nova Parnamirim, os jovens se banham nas águas do Pitimbu e fazem de suas margens, onde se forma uma “pequena praia”, campo de futebol para bater bola com os amigos. “Não tenho medo de tomar banho aqui”, afirma o estudante Alan Kelvin dos Santos, de 15 anos. Os banhistas, porém, são obrigados a uma convivência forçada com restos de lixo trazidos pelo rio e a presença de cavalos, sendo lavados no local.
No Jiqui, já próximo à lagoa onde o Pitimbu desagua, uma ponte concentra outros grupos que aproveitam as águas do rio como fonte de lazer. “Se esse rio fosse poluído a gente estava mal, mas não, isso aqui é um paraíso”, garante o garçom Francisco Barbosa, enquanto brinca com o filho dentro d’água. O local é cheio de árvores frutíferas e também reúne uma grande quantidade de pessoas nos fins de semana.

Fonte: Tribuna do Norte - 25/01/2009